A decisão de buscar ajuda psiquiátrica para uma criança ou um adolescente costuma ser difícil. Muitos pais se perguntam se o comportamento do filho faz parte do desenvolvimento ou se o quadro já merece atenção profissional.
O que faz um psiquiatra infantil?
O psiquiatra da infância e adolescência é o médico especializado em avaliar e cuidar da saúde mental de crianças e jovens. Nos Estados Unidos, a academia de psiquiatria da infância descreve esses médicos como especialistas com pelo menos cinco anos de formação além da faculdade.[1]
Diferente do psicólogo, que realiza as terapias de acompanhamento, o psiquiatra pode prescrever medicamentos quando há indicação. Na prática clínica, os dois profissionais muitas vezes trabalham juntos. A psiquiatria da infância e adolescência atua junto com a psicologia infantil para oferecer um cuidado completo à criança.
Quais sinais podem indicar um problema?
Vários comportamentos e mudanças podem sugerir que a criança ou o adolescente precisa de uma avaliação psiquiátrica. Nem todo desafio da infância é sinal de transtorno, no entanto alguns padrões merecem atenção.
A queda acentuada no desempenho escolar é um indicador relevante.[1] Quando a criança estuda bastante e, mesmo assim, tira notas baixas, ou quando perde de repente o interesse por atividades de que gostava, pode haver algo por trás desse quadro.
A ansiedade severa também pede avaliação. Isso inclui a recusa frequente em ir à escola e a dificuldade para dormir sozinho ou para participar de atividades típicas da idade.[1] A ansiedade na criança pode se manifestar de formas diferentes do adulto, como irritabilidade ou queixas físicas.
A desobediência ou a agressão persistente por mais de seis meses é outro sinal de alerta.[1] Brigas constantes, oposição a figuras de autoridade e um comportamento provocador que se mantém por meses indicam a necessidade de investigação.
Em adolescentes, mudanças bruscas de humor, isolamento social, perda de interesse por amigos ou atividades e falas sobre morte ou desesperança são sinais que não devem ser ignorados. Segundo a OMS, o suicídio é a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.[2]
Em adolescentes, também pedem avaliação as mudanças marcantes no sono ou na alimentação, o uso repetido de álcool ou drogas e as ameaças de fugir de casa.[1] O mesmo vale para o medo intenso de engordar, acompanhado de dietas exageradas, vômitos ou uso de laxantes.[1]
Sintomas que sugerem psicose, como ouvir vozes ou ter crenças estranhas, exigem avaliação sem demora.[3] O mesmo vale para as crises em que a família não consegue manter o jovem em segurança.
O que é esperado e o que merece investigação?
Crianças e adolescentes passam por fases de desenvolvimento que incluem desafios comportamentais. Choro, birras e testar limites fazem parte do crescimento; a diferença está na intensidade, na duração e no prejuízo que o comportamento causa.
É esperado que a criança pequena tenha dificuldade com a frustração e precise de ajuda para regular as emoções. Não é esperado, no entanto, que essas dificuldades a impeçam de aprender, fazer amigos ou participar de atividades em grupo.
Problemas de saúde mental em crianças e adolescentes são mais comuns do que se imagina. Segundo o Ministério da Saúde, atingem cerca de 10% a 20% dessa população, dependendo da metodologia usada.[4] Ainda assim, os profissionais da atenção básica raramente pensam em depressão e ansiedade nessa faixa etária.[4] Frases como "é coisa da idade" e "com o tempo passa" estão entre as principais razões para os pais não procurarem ajuda.[4]
A família deve prestar atenção quando o comportamento da criança causa sofrimento persistente para ela ou para quem convive com ela. Quando há dúvida, a avaliação esclarece se o quadro corresponde a uma fase ou a algo que precisa de cuidado.
Atenção: sinais que pedem avaliação imediata
Algumas situações não devem esperar. Se o adolescente fala em se machucar ou em morrer, procure atendimento de urgência. O mesmo vale para o comportamento agressivo que coloca em risco a segurança dele ou de outras pessoas, e para sintomas de psicose, como delírios ou alucinações.

Por que esses sinais aparecem?
As causas dos problemas de saúde mental na infância são múltiplas. Não existe uma única explicação, e cada caso precisa de uma avaliação individual.
A saúde mental dos pais influencia os filhos. Filhos de pais com depressão têm maior risco de desenvolver um transtorno depressivo antes dos 20 anos.[5] A depressão materna, em qualquer momento, foi associada a um risco aumentado de TDAH na criança em revisão sistemática recente.[6]
Os transtornos mentais em adultos, em geral, foram precedidos por problemas na juventude. A ansiedade no adulto, por exemplo, muitas vezes começou como ansiedade na infância ou na adolescência.[5]
O ambiente familiar também conta. Violência, conflitos persistentes e falta de apoio afetivo aumentam a vulnerabilidade; por outro lado, fatores protetores, como vínculos afetivos estáveis, ajudam a construir resiliência.[4]
Como é feita a investigação?
A avaliação psiquiátrica infantil é um processo amplo e cuidadoso. Não se resume a uma conversa rápida ou à aplicação de um teste.
Na avaliação, o psiquiatra ouve a criança ou o adolescente, os pais e, quando possível, outros adultos que conhecem bem o jovem, como os professores.[4] A escola é uma fonte valiosa de informação sobre o comportamento e o aprendizado.
A avaliação inclui o histórico de desenvolvimento, a saúde física, a visão, a audição e os aspectos cognitivos.[4] Às vezes, é preciso descartar problemas orgânicos que podem se parecer com um quadro psiquiátrico. Alguns medicamentos de uso crônico também podem causar sintomas psíquicos como efeito colateral.[4]
O diagnóstico é clínico, baseado em critérios estabelecidos. O médico formula hipóteses para compreender o que está acontecendo e delineia as primeiras intervenções.[4] Não existe exame de sangue ou de imagem que confirme sozinho um transtorno mental.
Instrumentos formais podem auxiliar nesse processo. Questionários como o Strengths and Difficulties Questionnaire e o Child Behavior Checklist ajudam a mapear as dificuldades e os pontos fortes da criança.[7]
Quando buscar avaliação
Vale marcar uma consulta quando os sinais descritos persistem por semanas e causam sofrimento ou prejuízo na rotina. A terapia cognitivo-comportamental e outras abordagens têm apoio de estudos para crianças e adolescentes.
Perguntas frequentes sobre quando levar filho ao psiquiatra infantil
Psiquiatra infantil atende até que idade?
O psiquiatra da infância e adolescência atende crianças e adolescentes. A CID-10 tem um grupo próprio para transtornos do comportamento e emocionais que aparecem habitualmente na infância ou na adolescência.[8]
Qual a diferença entre psiquiatra infantil e psicólogo infantil?
O psiquiatra é médico e pode prescrever medicamentos quando necessário. O psicólogo faz avaliações psicológicas e acompanhamento terapêutico. Muitas vezes, os dois trabalham em conjunto.
Como preparar a criança para a primeira consulta?
Explique de forma simples e honesta que vão conversar com um médico que ajuda crianças a se sentirem melhor. Evite criar expectativas de "exame" ou "prova". Diga que o profissional vai ouvir o que ela tem a dizer sobre como está se sentindo.
Preciso de encaminhamento para consultar um psiquiatra infantil?
Não necessariamente. No setor privado, você pode agendar diretamente. No SUS, o acesso em geral passa pela atenção básica ou pela unidade de saúde da família, que faz o encaminhamento para a rede especializada.
A escola pode ajudar na avaliação?
Sim. Professores e coordenadores observam o comportamento da criança em contexto diferente do familiar. O relato da escola enriquece a avaliação e ajuda a entender se as dificuldades aparecem em vários ambientes ou só em casa.
Problemas de comportamento são sempre sinal de transtorno?
Não. Muitos comportamentos desafiadores fazem parte do desenvolvimento normal. O psiquiatra ajuda a distinguir o que é fase do que precisa de intervenção, considerando a idade, a duração dos sinais e o prejuízo causado.
Se você reconhece sinais de alerta no seu filho, a avaliação psiquiátrica pode trazer clareza e direcionamento. O primeiro passo é conversar abertamente sobre o que está observando e buscar orientação profissional.
Leia também: página do Dr. Alexandre Quelho Comandule, médico psiquiatra da infância e adolescência.
As informações contidas neste texto têm caráter estritamente educativo. O treinamento clínico e a experiência de um profissional são necessários para aplicar critérios diagnósticos e diferenciar transtornos de variações normais. Nunca utilize essas informações para autodiagnóstico ou automedicação. Consulte sempre um médico ou um profissional de saúde qualificado.
Referências
Manuais e diretrizes
- World Health Organization. Mental health of adolescents. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/adolescent-mental-health
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). NICE CG155 Psychosis and schizophrenia in children and young people: recognition and management. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/cg155
- Governo do Brasil. Cadernos de Atenção Básica nº 34: Saúde Mental (MS 2013) (parte 8/13). Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cadernos_atencao_basica_34_saude_mental.pdf#parte-8
- Governo do Brasil. Diretrizes Assistenciais em Saúde Mental na Saúde Suplementar (ANS) (parte 3/5). Disponível em: https://www.ans.gov.br/images/stories/Plano_de_saude_e_Operadoras/Area_do_consumidor/diretrizes_assistenciais.pdf#parte-3
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Antisocial behaviour and conduct disorders in children and young people: recognition and management. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/cg158/chapter/Recommendations
- Ministério da Saúde (Brasil). DATASUS. CID-10: F90-F98 Transtornos do comportamento e transtornos emocionais que aparecem habitualmente durante a infância ou a adolescência. Disponível em: http://www2.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f90_f98.htm
Artigos de revisão recentes
- Robinson, Bitsko, O'Masta et al. A Systematic Review and Meta-analysis of Parental Depression, Antidepressant Usage, Antisocial Personality Disorder, and Stress and Anxiety as Risk Factors for Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder (ADHD) in Children. Prevention science : the official journal of the Society for Prevention Research. 2024. PMID: 35641729. DOI: 10.1007/s11121-022-01383-3.
Demais estudos
- AACAP Facts for Families: When To Seek Help For Your Child (No. 24). Disponível em: https://www.aacap.org/AACAP/Families_and_Youth/Facts_for_Families/FFF-Guide/When-To-Seek-Help-For-Your-Child-024.aspx


