Se você encontrou um desses códigos em um atestado ou laudo, este texto ajuda a compreender o que cada um representa e por que ele pode aparecer no documento.
O que é cid f20?
O código F20 da CID-10 significa esquizofrenia, um transtorno que altera significativamente a percepção da realidade, o pensamento e as emoções do indivíduo.[2] Na versão mais nova, a CID-11, esse mesmo diagnóstico recebe o código 6A20.[1]
A esquizofrenia não é uma única doença, mas um grupo de condições com características em comum. A pessoa pode ouvir vozes que os outros não ouvem, ter certezas sem fundamento ou sentir que seus pensamentos estão sendo controlados. Esses sintomas são chamados de psicóticos, ou seja, sintomas que afastam o paciente da realidade compartilhada com as pessoas ao redor.
Como ler a classificação desses códigos?
A CID, Classificação Internacional de Doenças, é um sistema da OMS que padroniza nomes e códigos para toda condição de saúde. A letra F indica o capítulo dos problemas de saúde mental e de comportamento, e os números que vêm depois detalham o diagnóstico específico.
Na CID-10, usada no Brasil, os códigos F20 a F29 abrangem a esquizofrenia, os transtornos esquizotípicos e os transtornos delirantes.[2] Veja os três principais:
- F20: esquizofrenia.
- F21: transtorno esquizotípico.
- F25: transtornos esquizoafetivos.
Na CID-11, a OMS mudou esses códigos para números diferentes.[1] É útil saber que esses números novos se referem às mesmas condições. Veja a correspondência:
- Esquizofrenia: virou 6A20.
- Transtorno esquizotípico: virou 6A22.
- Transtorno esquizoafetivo: virou 6A21.

O que cada código diz sobre o que a pessoa pode ter?
F20: esquizofrenia
A esquizofrenia se caracteriza por distorções do pensamento e da percepção, com afetos inapropriados ou embotados, isto é, emoções que não combinam com a situação ou que parecem apagadas.[2] O indivíduo mantém em geral a consciência e a capacidade intelectual, embora déficits cognitivos possam aparecer com o tempo.[2]
Para o diagnóstico na CID-11, são necessários pelo menos dois sintomas presentes a maior parte do tempo por um mês ou mais. Pelo menos um deles deve ser delírios persistentes, alucinações, pensamento desorganizado ou experiências de influência e controle.[3]
A evolução do quadro pode ser contínua, episódica com déficit progressivo ou estável, ou ainda com episódios seguidos de remissão completa ou incompleta.[2]
F20.1: esquizofrenia hebefrênica
O código F20.1 é um subtipo específico da esquizofrenia, chamado de esquizofrenia hebefrênica ou desorganizada. Nesse quadro, os afetos ficam alterados e inadequados, o comportamento é imprevisível e o discurso se torna incoerente. Em geral, só deve ser diagnosticada em adolescentes e adultos jovens.[2]
F21: transtorno esquizotípico
O F21, transtorno esquizotípico, não é esquizofrenia, embora compartilhe algumas características com ela. A pessoa pode ter ideias estranhas, dificuldade de relacionamento e um comportamento que parece esquisito para os outros, sem chegar a uma psicose plena. Na CID-10, em nenhum momento aparecem os sinais claros da esquizofrenia.[2]
Na CID-11, esse perfil tem o código 6A22, no agrupamento de esquizofrenia e outros transtornos psicóticos primários. Os sintomas são mais leves: o indivíduo parece excêntrico ou peculiar, mas não claramente psicótico.[1]
F25: transtorno esquizoafetivo
O F25, transtorno esquizoafetivo, é usado quando há uma mistura de sintomas de psicose e de alteração do humor, como mania ou depressão, ao mesmo tempo.[2][4] O diagnóstico é clínico, ou seja, feito na avaliação do paciente, e exige que os sintomas de humor e de psicose coexistam.[4]
Na CID-10, existem subtipos: tipo maníaco, tipo depressivo e tipo misto.[4] Na CID-11, esse perfil também está no agrupamento de esquizofrenia e outros transtornos psicóticos primários.
Por que o código aparece no atestado?
O médico só pode colocar o diagnóstico, com código ou sem, no atestado em três situações: por justa causa, em exercício de dever legal, ou a pedido do próprio paciente ou de seu representante legal.[5]
Se você solicitar que o diagnóstico conste no atestado, essa concordância precisa ficar registrada por escrito no documento e no prontuário.[5] Fora dessas situações, o atestado sai sem o diagnóstico.
O documento médico precisa corresponder à verdade, segundo o Código de Ética Médica.[6] Isso significa que você pode pedir que o diagnóstico não apareça, mas não pode pedir que o código seja trocado ou alterado.
O sigilo médico continua mesmo que o fato seja de conhecimento público.[6] O fato de a CID ser pública não muda isso: o código só entra no atestado nas situações previstas na norma.
O que fazer ao ver esse código no seu documento?
Se o código não ficou claro, o primeiro passo é conversar com o médico que assinou o atestado. Compreender o diagnóstico faz parte do processo de cuidado, e o paciente tem o direito de entender o que foi registrado.
Você também pode solicitar uma avaliação psiquiátrica para tirar dúvidas sobre o que o código significa na sua situação específica. Na prática clínica, o diagnóstico pode ser ajustado se os sintomas do quadro mudarem com o tempo.
Para compreender melhor como os transtornos do humor se relacionam com sintomas psicóticos, veja nosso conteúdo sobre transtorno bipolar e depressão.
Perguntas frequentes sobre o que significa cid f20
Qual a diferença entre F20 e F25?
F21 é esquizofrenia?
O que significa F20.0?
O F20.0 é esquizofrenia paranoide, um subtipo em que os delírios e alucinações são proeminentes, e as alterações do afeto, da vontade e da fala ficam ausentes ou discretas.[2]
O F21 corresponde a qual código na CID-11?
Posso pedir para retirar o código do atestado?
Sim. Você pode pedir que o diagnóstico não conste no atestado. O médico só pode incluir o código por justa causa, dever legal ou se você pedir por escrito.[5]
O empregador pode exigir o código CID no atestado?
A Resolução CFM 2.381/2024 trata do médico, não do empregador. Ela diz que o médico só coloca o diagnóstico no atestado por justa causa, dever legal ou pedido do paciente.[5] Fora dessas situações, o atestado sai sem o diagnóstico.
Entender o que significa cid f20 e os códigos relacionados ajuda você a participar ativamente do seu cuidado. O código é uma ferramenta técnica, mas a conversa com seu médico é o que realmente importa para entender sua situação.
Leia também: página do Dr. Leandro Simões Abrão.
As informações contidas neste texto têm caráter estritamente educativo. O treinamento clínico e a experiência de um profissional são necessários para aplicar critérios diagnósticos e diferenciar transtornos de variações normais. Nunca utilize essas informações para autodiagnóstico ou automedicação. Consulte sempre um médico ou um profissional de saúde qualificado.
Referências
Manuais e diretrizes
- Organização Mundial da Saúde (OMS). CDDR/CID-11: Schizophrenia and other primary psychotic disorders. Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. 2024. Disponível em: https://iris.who.int/handle/10665/375767#schizophrenia-and-other-primary-psychotic-disorders
- Ministério da Saúde (Brasil). DATASUS. F20-F29 Esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e transtornos delirantes. Disponível em: http://www2.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f20_f29.htm
- Organização Mundial da Saúde (OMS). CDDR/CID-11: 6A20 Schizophrenia. Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. 2024. Disponível em: https://iris.who.int/handle/10665/375767#6A20
- Ministério da Saúde (Brasil). PCDT Transtorno Esquizoafetivo (Ministério da Saúde, 2021): 3. DIAGNÓSTICO. 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/t/transtorno-esquizoafetivo#transtorno-esquizoafetiv-3-175ec9
Demais estudos
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.381/2024: normatiza a emissão de documentos médicos (atestado, declaração, relatório, laudo). 2024. Disponível em: https://sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/resolucoes/BR/2024/2381_2024.pdf
- Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 2.217/2018, modificada pelas Resoluções CFM nº 2.222/2018 e nº 2.226/2019). 2018. Disponível em: https://sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/resolucoes/BR/2018/2217_2018.pdf


