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Como ajudar um dependente químico: o que fazer quando quem usa não quer tratamento

Entenda como ajudar um dependente químico que não quer tratamento. Veja o que a ciência mostra sobre abordagens familiares, erros comuns e quando buscar ajuda.

Família em conversa de apoio em ambiente acolhedor, representando como ajudar um dependente químico

Em resumo

  • A família pode ser parceira no cuidado, mesmo quando a pessoa ainda não quer parar de usar.
  • Abordagens baseadas em comunicação não julgadora têm apoio de diretrizes internacionais.
  • Redução de danos é uma estratégia válida quando a abstinência ainda não é o objetivo.
  • Internação involuntária existe, mas segue regras específicas da lei.
  • O cuidado com a própria saúde mental do familiar é parte do processo.
Neste artigo
  1. O que é o uso problemático de substâncias?
  2. O que a ciência mostra sobre a família no tratamento?
  3. Como aplicar na prática?
  4. Quais erros a família costuma cometer?
  5. Quais são os limites do que a família pode fazer?
  6. Quando a situação é urgência?
  7. Perguntas frequentes sobre como ajudar um dependente químico

Este guia mostra abordagens que envolvem a família de forma respeitosa.

O que é o uso problemático de substâncias?

O uso problemático de substâncias, ou transtorno por uso de substâncias, é um padrão de consumo que causa prejuízo na saúde, nas relações ou nas obrigações diárias.1 A pessoa continua usando mesmo vendo os problemas que isso traz.

No dia a dia, isso pode aparecer como promessas de parar que não se concretizam, mentiras sobre quanto usa, ou a sensação de que a substância passou a mandar na rotina. A família muitas vezes percebe antes de quem usa.

O que a ciência mostra sobre a família no tratamento?

A família é reconhecida como parceira nos serviços de saúde mental no Brasil.2 Isso significa que você não precisa esperar a pessoa querer ajuda para receber orientação.

Diretrizes britânicas pedem que a equipe converse com a pessoa sobre envolver a família e ofereça ao familiar uma avaliação das próprias necessidades. Se grupos de apoio e material de orientação não bastarem, a diretriz sugere encontros da equipe com a família.3 Esses encontros dão informação sobre as drogas e ajudam a família a lidar com o estresse.

A OMS orienta profissionais a discutir opções de mudança baseadas em metas realistas e a apoiar a pessoa a colocar essas mudanças em prática.4 Isso inclui comunicar confiança na capacidade de mudar.

A diretriz brasileira sobre cocaína destaca que o tratamento deve estar acessível e ser iniciado rapidamente, porque a demora faz muita gente desistir antes de começar.6 A família pode ajudar a reduzir barreiras para esse momento.

Como aplicar na prática?

Escute sem julgar

A OMS sugere perguntar, de forma não julgadora, os motivos do uso, o que a pessoa percebe como benefício e quais danos ela reconhece.4 Isso abre espaço para diálogo.

Informe-se sobre redução de danos

O Ministério da Saúde propõe que a família seja acolhida e inserida em atividades coletivas, como grupos de terapia comunitária.2 Redução de danos é uma abordagem válida mesmo quando a abstinência parece distante.

Respeite o ritmo da pessoa

Diretrizes britânicas orientam a explicar opções de abstinência, manutenção e redução de danos desde o primeiro contato.3 A escolha deve ser da pessoa, com informação clara.

Cuide da sua própria saúde

Buscar avaliação em saúde mental para si mesmo é válido e recomendado. O sofrimento do familiar também precisa atenção.

Conheça os serviços da sua região

Em Campinas, por exemplo, a pessoa pode ir direto a um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), e a família também recebe orientação.5 Você pode buscar orientação mesmo sem a pessoa usuária.

Quais erros a família costuma cometer?

Um erro comum é tentar resolver sozinho, escondendo a situação de vizinhos e amigos. O isolamento aumenta a carga emocional e reduz as opções de apoio.

Outro é o confronto constante, com ameaças ou ultimatos. Isso costuma empurrar a pessoa para a defensiva e afastá-la da família.

Ignorar o próprio cansaço também é frequente. Muitos familiares deixam de dormir bem, de se alimentar direito ou de fazer atividades que gostam. A exaustão não ajuda ninguém.

Finalmente, esperar que uma internação resolva tudo. A internação é um momento, não uma solução completa. O que vem depois é tão importante quanto.

Quais são os limites do que a família pode fazer?

A família não substitui o tratamento profissional. A decisão de buscar ajuda, no fim, é da pessoa que usa, e isso pode ser frustrante.4

A terapia de casal sugerida pela diretriz britânica vale quando o parceiro não usa drogas.3 Nem todas as famílias têm essa configuração.

Quando há risco de violência, a segurança vem primeiro. A família não precisa tolerar agressões para "ajudar".

Quando a situação é urgência?

Busque atendimento imediato: vá a uma UPA 24 horas ou a um pronto-socorro, ou ligue para o SAMU 192, se houver:5

  • ameaça de ferir a si mesmo ou outras pessoas;
  • confusão mental severa, alucinações ou desorientação;
  • sinais de overdose, como dificuldade para respirar ou inconsciência;
  • convulsões ou queda com trauma na cabeça.

Ameaças de suicídio exigem atendimento de urgência, não espera.

Perguntas frequentes sobre como ajudar um dependente químico

Como convencer um dependente químico a se tratar?

Não existe uma fórmula de convencimento. O que as diretrizes sugerem é criar um ambiente de diálogo, ouvir os motivos da pessoa e apresentar opções de cuidado sem impor uma única solução.34 A decisão final precisa ser dela.

Dá para tratar um dependente químico em casa?

Não só com a família. O tratamento de transtorno por uso de substâncias requer acompanhamento profissional. O que a família pode fazer em casa é apoiar mudanças, mas isso complementa, não substitui, o cuidado médico e psicológico.

A família pode pedir internação?

Sim, mas com regras específicas. Pela Lei 10.216/2001, a internação involuntária é pedida por outra pessoa, autorizada por médico registrado no CRM e comunicada ao Ministério Público em até 72 horas. Não precisa de juiz. Ela só é indicada quando os recursos fora do hospital se mostrarem insuficientes.7 Para dependência de drogas, a Lei 13.840/2019 diz que o pedido pode vir de familiar ou responsável legal e que a decisão é formalizada pelo médico. Ela só vale quando outras alternativas de tratamento não forem possíveis e dura no máximo 90 dias.8

A família pode buscar ajuda mesmo sem a pessoa usuária?

Sim. O Ministério da Saúde orienta que os serviços de saúde mental da Atenção Básica acolham familiares e ofereçam apoio, inclusive com inserção em grupos e atividades coletivas.2 Você pode procurar a unidade de saúde da sua região mesmo sem a pessoa usuária.

Como saber se estou fazendo certo?

Não há garantia de resultado. O que você pode observar é se a comunicação está mais aberta, se você está menos exausto e se a pessoa mantém algum vínculo com a família. Pequenas mudanças no padrão de uso já são sinais de que a abordagem pode estar funcionando.

Quando devo procurar ajuda para mim?

Quando o cansaço, a ansiedade ou a depressão começam a tomar conta dos seus dias. A diretriz britânica recomenda oferecer ao familiar uma avaliação das próprias necessidades, inclusive de saúde mental.3 Cuidar de você é parte de ajudar o outro.

Se você vive essa situação, saiba que não está sozinho. A orientação profissional pode ajudar a encontrar caminhos que respeitem tanto quem usa quanto quem cuida.

Apresentar meu caso

Leia também: nossa página de psiquiatria para entender mais sobre ansiedade e outros temas de saúde mental.

As informações contidas neste texto têm caráter estritamente educativo. O treinamento clínico e a experiência de um profissional são necessários para aplicar critérios diagnósticos e diferenciar transtornos de variações normais. Nunca utilize essas informações para autodiagnóstico ou automedicação. Consulte sempre um médico ou um profissional de saúde qualificado.

Referências

Manuais e diretrizes

  1. Governo do Brasil. Cadernos de Atenção Básica nº 34: Saúde Mental (MS 2013) (parte 5/13). Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cadernos_atencao_basica_34_saude_mental.pdf#parte-5
  2. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Drug misuse in over 16s: psychosocial interventions. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/cg51
  3. World Health Organization. WHO mhGAP Intervention Guide 2.0 (2016): Disorders due to substance use (SUB). 2016. Disponível em: https://iris.who.int/handle/10665/250239#substance-use
  4. Prefeitura de Campinas. Buscar consulta ou atendimento em saúde mental. Disponível em: https://portal-adm.campinas.sp.gov.br/servico/buscar-consulta-ou-atendimento-em-saude-mental
  5. Diretriz AMB/CFM (Projeto Diretrizes): Abuso e dependência de cocaína. Disponível em: https://amb.org.br/wp-content/uploads/2021/09/ABUSO-E-DEPENDENCIA-DE-COCAINA-FINAL-2016.pdf
  6. Governo do Brasil. Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001. 2001. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10216.htm
  7. Governo do Brasil. Lei nº 13.840, de 5 de junho de 2019. 2019. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/l13840.htm

Demais estudos

  1. Manual MSD (família): Transtornos por uso de substâncias. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-de-sa%C3%BAde-mental/transtornos-por-uso-de-subst%C3%A2ncias/transtornos-por-uso-de-subst%C3%A2ncias