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Vício em apostas: quando o impulso vira diagnóstico

Vício em apostas é reconhecido como transtorno na CID-11. Entenda os sinais, os fatores de risco e como funciona o tratamento com psicoterapia.

Pessoa sentada de costas em frente ao computador, ambiente doméstico com luz natural, ilustrando o isolamento do vício em apostas

Em resumo

  • O transtorno do jogo e o transtorno de jogos eletrônicos são reconhecidos na CID-11 da OMS como comportamentos aditivos.
  • Compras compulsivas ainda não têm categoria própria no manual, embora especialistas discutam critérios.
  • O Ministério da Saúde orienta que o tratamento seja feito por equipe multiprofissional, com atendimentos individuais e em grupo e, em alguns casos, medicação.
  • A família pode ajudar ao notar mudanças de comportamento e apoiar a busca por avaliação.
Neste artigo
  1. O que é vício em apostas?
  2. O que a ciência mostra sobre esses comportamentos?
  3. Como aplicar: o que fazer no dia a dia
  4. Erros comuns que atrapalham
  5. Limites da medida: o que o acompanhamento não substitui
  6. Perguntas frequentes sobre vício em apostas

O vício em apostas pode começar como lazer e virar um padrão que domina a rotina. Este artigo explica quando o comportamento vira transtorno, quais são os sinais e como funciona o tratamento.

O que é vício em apostas?

O vício em apostas, na classificação médica, chama-se transtorno do jogo. A CID-11 da OMS o codifica como 6C50 e o define como padrão persistente de comportamento de jogo, online ou offline, que traz prejuízo ao controle, às prioridades e às consequências da vida 1.

Isso quer dizer que a pessoa não consegue parar mesmo quando quer, deixa outras atividades de lado para apostar e continua apesar de prejuízos financeiros, brigas em casa ou problemas de saúde. O padrão dura meses, não é algo de uma semana ruim.

Existe também o transtorno de jogos eletrônicos, código 6C51, para quem desenvolve padrão semelhante com videogames 2. Aqui o jogo não envolve dinheiro, mas a perda de controle e a prioridade excessiva são as mesmas.

O que a ciência mostra sobre esses comportamentos?

Na CID-11, o transtorno do jogo e o de jogos eletrônicos ficam no grupo dos transtornos por comportamentos aditivos, separados dos transtornos de controle de impulsos, como a cleptomania 13.

No transtorno do jogo, a perda de controle aparece na frequência, no tempo gasto, na dificuldade de parar e na persistência mesmo com prejuízos 1. O padrão pode ser contínuo ou vir em ondas e costuma durar bastante tempo, em geral cerca de 12 meses. Quando o quadro é grave, o diagnóstico pode ser feito antes, por exemplo com 6 meses 1.

Já no transtorno de jogos eletrônicos, a pessoa prioriza cada vez mais os games em detrimento de estudos, trabalho, relacionamentos e sono 2. O quadro pode vir acompanhado de sintomas de ansiedade e depressão em adultos.

Quanto às compras compulsivas, especialistas internacionais discutem critérios diagnósticos, mas ainda não há categoria própria na CID-11 4. Quando o impulso de comprar traz sofrimento claro, a CID-11 trata as compras compulsivas como exemplo da categoria outro transtorno especificado de controle de impulsos (6C7Y) 4.

Algumas condições médicas podem causar sintomas parecidos. O médico também verifica se o jogo não vem de outro quadro, como um episódio de mania, ou do efeito de remédios ou drogas, como alguns remédios para Parkinson 1.

Os jogadores de alto risco são, na maioria, homens, em especial jovens e solteiros 6. A facilidade de acesso aos jogos online e a busca por alívio emocional são fatores que aumentam a vulnerabilidade 7.

Como aplicar: o que fazer no dia a dia

Reconhecer os sinais

A pessoa com transtorno do jogo pode mentir sobre as apostas, usar o jogo para lidar com estresse, sentir inquietação quando não está jogando e comprometer o orçamento da família. Mudanças no sono, no humor e no uso de álcool também aparecem.

Buscar avaliação especializada

O diagnóstico é clínico. O psiquiatra ouve a história, avalia o padrão de comportamento e verifica se há outras condições como depressão ou ansiedade. Não existe exame de sangue ou teste de internet que confirme o quadro.

Entender o tratamento

O Ministério da Saúde orienta que o tratamento seja feito por equipe multiprofissional, com atendimentos individuais e em grupo e, em alguns casos, medicação 7.

Envolvimento da família

Quem convive com a pessoa pode ajudar ao notar mudanças cedo, conversar sem julgamento e apoiar a busca por tratamento. Esconder dívidas ou cobrar com agressão costuma piorar o isolamento.

Cuidado com o acesso

Bloquear apps de apostas e limitar o tempo de tela podem ajudar, mas não substituem o acompanhamento profissional.

Erros comuns que atrapalham

Achar que o problema é só falta de força de vontade. O transtorno envolve perda de controle sobre o jogo, não é simples escolha de parar.

Esperar que a pessoa perca tudo para agir. Não é preciso esperar perdas grandes para buscar avaliação.

Acreditar que compras compulsivas têm o mesmo reconhecimento de apostas e jogos. Ainda não é assim na prática clínica padronizada.

Confundir lazer frequente com transtorno. Jogar ou comprar de vez em quando não é diagnóstico. O problema está na perda de controle, nas prioridades invertidas e nas consequências negativas persistentes.

Limites da medida: o que o acompanhamento não substitui

Para o diagnóstico, o padrão costuma durar cerca de 12 meses (pode ser menos, se o quadro for grave) e causa sofrimento importante ou prejuízo na vida pessoal, familiar, social, nos estudos ou no trabalho 1. Quem aposta muito mas mantém o controle e não sofre consequências não recebe esse diagnóstico.

Para quem está em risco mas ainda não atinge os critérios, a CID-11 prevê a categoria de jogo ou apostas perigosas. Isso indica que o comportamento merece atenção de profissionais de saúde, mesmo sem ser transtorno.

O mesmo vale para jogos eletrônicos: há a categoria de jogo perigoso para padrões que aumentam o risco de dano, mas não preenchem todos os critérios do transtorno.

Compras compulsivas não têm categoria própria e entram na categoria residual 6C7Y; alguns pesquisadores defendem classificá-las entre os comportamentos aditivos 4.

Perguntas frequentes sobre vício em apostas

Vício em apostas é doença?

Sim, na classificação médica atual. A CID-11 da OMS reconhece o transtorno do jogo como condição de saúde mental, com critérios diagnósticos definidos 1.

Como saber se a pessoa está viciada em bets?

Observe se ela perdeu o controle sobre quando e quanto aposta, se deixou outras atividades de lado e se continua apesar de prejuízos financeiros ou familiares. Esses são sinais centrais do transtorno 1.

Existe remédio para vício em apostas?

O Ministério da Saúde orienta que o tratamento seja feito por equipe multiprofissional, com atendimentos individuais e em grupo e, em alguns casos, medicação 7.

A família pode ajudar?

Pode, ao notar mudanças de comportamento, conversar sem julgamento e apoiar a busca por avaliação profissional. Cobrança agressiva ou esconder dívidas costuma piorar a situação.

Vício em jogos eletrônicos é diferente de vício em apostas?

Sim na forma, semelhante na estrutura. Em jogos eletrônicos não há aposta de dinheiro, mas a perda de controle, a prioridade excessiva e as consequências negativas são as mesmas 2.

Compras compulsivas também são transtorno?

Ainda não há categoria própria na CID-11, embora especialistas discutam critérios. Quando o impulso de comprar traz sofrimento significativo, o médico pode usar outros códigos de transtorno de controle de impulsos 45.

Este artigo explica o que é vício em apostas, como reconhecer os sinais e como funciona o tratamento. O objetivo é mostrar que o comportamento pode ser investigado e manejado em conjunto com a equipe que acompanha o caso.

Apresentar meu caso

Leia também: como funciona a avaliação psiquiátrica.

As informações contidas neste texto têm caráter estritamente educativo. O treinamento clínico e a experiência de um profissional são necessários para aplicar critérios diagnósticos e diferenciar transtornos de variações normais. Nunca utilize essas informações para autodiagnóstico ou automedicação. Consulte sempre um médico ou um profissional de saúde qualificado.

Referências

Manuais e diretrizes

  1. Organização Mundial da Saúde (OMS). CDDR/CID-11: 6C50 Gambling disorder. Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. 2024. Disponível em: https://iris.who.int/handle/10665/375767#6C50
  2. Organização Mundial da Saúde (OMS). CDDR/CID-11: 6C51 Gaming disorder. Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. 2024. Disponível em: https://iris.who.int/handle/10665/375767#6C51
  3. Organização Mundial da Saúde (OMS). CDDR/CID-11: Impulse control disorders. Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. 2024. Disponível em: https://iris.who.int/handle/10665/375767#impulse-control-disorders
  4. Müller, Laskowski, Trotzke et al. Proposed diagnostic criteria for compulsive buying-shopping disorder: A Delphi expert consensus study. Journal of behavioral addictions. 2021. PMID: 33852420. DOI: 10.1556/2006.2021.00013.
  5. Organização Mundial da Saúde (OMS). CDDR/CID-11: 6C7Y Other specified impulse control disorder. Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. 2024. Disponível em: https://iris.who.int/handle/10665/375767#6C7Y
  6. Ministério da Saúde (Brasil). Saúde de A a Z (Ministério da Saúde): Saúde Mental - Não Aposte Sua Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-mental/nao-aposte-sua-saude

Artigos de revisão recentes

  1. Moreira, Azeredo, Dias. Risk Factors for Gambling Disorder: A Systematic Review. Journal of gambling studies. 2023. PMID: 36884150. DOI: 10.1007/s10899-023-10195-1.